claudio guimarães, abbc

ENTREVISTA

O mercado financeiro está prestes a dar um salto quântico

Pagamentos instantâneos e open banking vão aumentar a competição, e a pandemia, ao expor deficiências como os 60 milhões de brasileiros invisíveis, terá mudado para sempre a forma de prestar serviços bancários

Por Edilma Rodrigues

 Associação Brasileira de Bancos (ABBC) agrega bancos, especialmente bancos médios e financeiras. E recentemente acrescentou novos atores do setor de serviços financeiros ao seu quadro de associados. O diretor executivo da organização, Claudio Guimarães, fala sobre como essa pluralidade de atores fomenta o compartilhamento de diferentes experiências e pontos de vista, o que fortalece o ecossistema e estimula a competição.

Para o executivo, os pagamentos instantâneos e o open banking vão fazer o Brasil ter novamente um papel mais significativo e estar na fronteira tecnológica no mercado financeiro mundial. Por sua vez, segundo ele, a crise do novo coronavírus escancarou deficiências do setor, como a exclusão financeira de 60 milhões de brasileiros, invisíveis antes do cadastramento para o auxílio emergencial do governo, o que desafia o setor quanto à inclusão dessas pessoas e sua educação financeira. 

Os serviços bancários tiveram de se adaptar ao isolamento social, algo sem volta, segundo Guimarães.

Está na pauta da ABBC incorporar novos atores do mercado financeiro, como as fintechs. Em que ponto SE ENCONTRA esse processo e qual é a estratégia da entidade?

A ABBC passou, nos últimos dois anos e meio, por uma transformação intensa, que culminou com a associação de todas as instituições de ponta, em termos tecnológicos, como a XP Investimentos, o C6 Bank, quando foi lançado, e o Nubank. Além de outros que já eram associados e se transformaram: Inter, BS2, Banco Pan, Agibank. Somos a casa dos bancos digitais, lembrando que todos os bancos vão ser digitais num futuro próximo, porque essa é a condição para a prestação de serviços bancários de qualidade.

Em março deste ano, nosso conselho aprovou a entrada de sociedades de empréstimo entre pessoas (SEPs), sociedades de crédito direto (SCDs), que surgem com um novo modelo de empréstimo, e instituições de pagamento (IPs).

Iniciamos 2020 com 82 instituições associadas e chegamos ao segundo semestre com 89 e mais três em processo de afiliação. Entre elas, estão três bancos de desenvolvimento, os três maiores bancos americanos, três instituições chinesas, financeiras, bancos de nicho, que atuam com crédito consignado. Além dos dois maiores bancos cooperativos do país, entre outras cooperativas. Essa pluralidade, que não existe em nenhuma outra associação do mercado financeiro, é construtiva e permite compartilhar conhecimento sob diversos pontos de vista, o que nos torna mais fortes. 

Sempre vimos as fintechs como parceiros e feeders, não como instituições que competem com os associados. Eles, inclusive, implementaram muitos projetos desenvolvidos por fintechs.

O mercado financeiro vive um momento de inovações, tanto pela entrada de novos players como pelo avanço das tecnologias e pela mudança de hábito das pessoas. Qual é a agenda da ABBC para acompanhar essas evoluções e garantir a representatividade das pautas dos associados junto ao Banco Central?

A orientação do presidente da ABBC, Ricardo Gelbaum, sempre foi sobre a postura propositiva da associação em relação ao regulador, ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a todos os órgãos que regulamentam o sistema financeiro. Quando levamos uma demanda, crítica ou sugestão, elas sempre têm atrelada uma solução. Como fizemos, em dezembro de 2017, sobre os normativos de abertura de conta corrente, que são dos anos 1990. Levamos ao BC diversas sugestões para modernizá-los. Em 1995, fazia sentido pedir para uma empresa seu endereço comercial. Qual é o endereço comercial de um motorista do Uber? Várias profissões e atividades surgiram e demandaram ajustes. Nossa área de assessoria econômica analisa todo o arcabouço regulatório para propor a modernização da regulação, mantendo a segurança, para que os associados possam ser mais competitivos. 

Projetos como a interoperabilidade de ATMs, o gateway de arrecadação, transformação digital, open banking e PIX são exemplos dessa postura e estão alinhados com a Agenda BC# e projetos estruturantes, que vão permitir que tenhamos um novo avanço. 

O mercado financeiro era um até 2002, quando foi implementado o Sistema de Pagamentos Brasileiro, que era tão bom quanto os sistemas de pagamento do mundo, ou até melhor. O SPB trouxe segurança, permitiu que atravessássemos todas as crises nos últimos dezoito anos. Com o open banking e o PIX, o mundo esteve à frente do mercado financeiro nacional, mas, em novembro, com o PIX, e, em outubro do ano que vem, com o open banking, o setor vai dar um novo salto quântico, capitaneado pela Agenda BC#. O Brasil vai voltar a ter um papel mais significativo e estar na fronteira da tecnologia em relação ao mercado mundial. Vamos fechar o gap que existiu entre o SPB e os novos pagamentos instantâneos e todas essas tendências mundiais. E implementá-las no Brasil, conhecendo o que deu certo ou não em outros países.

Iniciamos 2020 com 82 instituições associadas e chegamos ao segundo semestre com 89 e mais três em processo de afiliação

Os associados da ABBC fizeram, ou estão fazendo, muitas adaptações para se integrar ao PIX? Quais foram os desafios da associação e dessas instituições?

A ABBC criou o GT de pagamentos instantâneos, composto dos diversos atores e suas diferentes realidades. Em 26 de maio, em um encontro sobre o PIX, anunciamos a parceria da ABBC com a JD Consultores para fornecer serviços de SPI, o sistema de pagamentos instantâneos. O SPB funciona das 6 horas às 18 horas. Com os pagamentos instantâneos, entra em funcionamento o SPI, que vai ocorrer das 18 horas de um dia às 6 horas da manhã do dia seguinte. 

Entre as ações que desenvolvemos está o primeiro Cisf – Congresso de Inovação em Serviços Financeiros, que conta com o prêmio idei@ABBC para aproximar as fintechs dos associados, em novembro de 2018. Para você ter uma ideia, as startups premiadas tinham um ou dois clientes e o papel da ABBC é apresentá-las aos associados para que desenvolvam soluções para eles. Agora, vamos para a terceira edição do prêmio. O objetivo do Cisf deste ano é saber qual é a segunda geração do PIX e do open banking e como será essa transição.

Também realizamos uma série de palestras, inclusive sobre o novo normal. Temos a tendência de voltar ao que era antes, com a pandemia, mas, como disse Lulu Santos, “nada do que foi será do jeito que já foi um dia”. Vão surgir novas maneiras de fazer as coisas. E, mais uma vez, usamos a tecnologia para prestarmos serviços. A crise provoca em nós, como sociedade, o questionamento sobre a importância desses projetos estratégicos de inclusão financeira. Há filas para as pessoas sacarem o auxílio emergencial e percebemos a inclusão de 60 milhões de invisíveis. O que o mercado financeiro vai fazer por essas pessoas agora e no futuro? Qual é o papel dos bancos digitais e das fintechs diante desse novo desafio. Conserva-se a realidade antiga de manutenção da concentração? Faz sentido a pessoa não bancarizada, com mais de 60 anos ou com alguma comorbidade, entrar na fila da lotérica para pagar suas contas? Não existe uma solução mais moderna e inclusiva de pagamentos? Daí o nosso projeto do gateway de arrecadação. Se tudo fosse digital, seria muito mais fácil. 

A redução de custo do PIX é o que há de sensacional e revolucionário. Um décimo de centavo para fazer dez transações no PIX contra o valor em torno de um real, despendido por quem recebe o pagamento, no pagamento presencial. Esse é o custo Brasil. O desafio para o mercado financeiro é reduzir essa diferença. 

As medidas do BC e sua postura têm sido extremamente pró-competição. O Roberto Campos, presidente do BC, criou o DCEM (Departamento de Competição e de Estrutura do Mercado), voltado a estimular a concorrência.

em novembro, com o PIX, e, em outubro do ano que vem, com o open banking, o setor vai dar um novo salto quântico, capitaneado pela Agenda BC#

O open banking insere mais concorrência no mercado financeiro e demanda implementações necessárias à segurança das APIs e compliance no manuseio de dados dos clientes. Que demandas essa mudança traz para os associados e qual é a estratégia para manter a base de clientes em seus apps e sites?

Em conversa com o Banco Central sobre o open banking, a ABBC questionou sobre a participação ser obrigatória apenas para os bancos S1 e S2 e se os S3 e S4, maioria na ABBC, poderiam participar na primeira fase. O regulador disse que sim, desde que compartilhassem seus dados. Foi um pedido da ABBC ao BC porque entendemos que, se nossos associados ficassem de fora desse processo, significaria não podermos competir em um momento fundamental. Apenas seis associados são S2.

No fim de agosto de 2019, a ABBC reuniu dez fintechs e dez bancos digitais e fez a primeira PoC (prova de conceito) de open banking, finalizada em novembro. Queríamos mostrar que a tecnologia de compartilhamento de arquivos e de informações, entre bancos e fintechs, era possível. Essa PoC nos mostrou que cada participante tinha suas próprias APIs e realidades tecnológicas, com diferentes graus de desenvolvimento e de investimento. O grupo de trabalho da ABBC conseguiu fazer, nesse ambiente, com que as APIs dos diferentes participantes conversassem. Criamos uma espécie de API Translator, que permitiu que a API de um banco conversasse com a de uma fintech. Encerramos a primeira PoC com dois bancos – Pan e Original – integrados a duas fintechs – GuiaBolso e Geru.

Voltamos para a prancheta e fizemos a segunda PoC, que terminou em março, com associados que não puderam participar da primeira. Devido à pandemia, ainda não fizemos a apresentação desse trabalho. Nosso objetivo é mostrar, inclusive para o Banco Central, a evolução que houve em relação à primeira. Atualmente, existem mais bancos e fintechs integrados, trocando arquivos, compartilhando dados e funcionando em regime de open banking.

¹ Segundo classificação do BC, o S1, ou segmento 1, é composto dos bancos múltiplos, bancos comerciais, bancos de investimento, bancos de câmbio e caixas econômicas que tenham porte igual ou superior a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) ou exerçam atividade internacional relevante, independentemente do porte da instituição. O S2 é composto dos bancos múltiplos, bancos comerciais, bancos de investimento, bancos de câmbio e caixas econômicas, de porte inferior a 10% e igual ou superior a 1% do PIB; e pelas demais instituições de porte igual ou superior a 1% do PIB.

² O S3 é composto das instituições de porte inferior a 1% e igual ou superior a 0,1% do PIB. O S4 é composto das instituições de porte inferior a 0,1% do PIB.

revista-cantarino-entrevista-claudio-guimaraes-img01-ed15

O BC prevê que o open banking seja autorregulado. Quais são as iniciativas da ABBC para apoiar os encaminhamentos sobre o tema junto ao regulador e quais são as principais demandas das instituições?

O BC aprovou as regras para a estrutura inicial de governança do open banking, que inclui a formação de um conselho deliberativo, composto de sete membros. A ABBC vai participar desse conselho representando os bancos S3 e S4. As outras cadeiras são de representantes dos S1 e S2, cooperativas e instituições de crédito digital, grandes entidades de pagamento, instituições médias de pagamento e fintechs. O sétimo membro é um conselheiro independente, que será eleito com base em critérios técnicos rígidos para que agregue muito ao trabalho do conselho. O BC fica em um nível superior para acompanhar tudo que é feito pelo conselho. O open banking é isso: autorregulação, como fazer juntos.

A ABBC expôs ao BC a preocupação dos associados quanto à participação no orçamento do open banking. Propusemos que o rateio seja proporcional ao patrimônio líquido de cada instituição financeira. Além disso, como diversas instituições participam de mais de uma associação, também recomendamos que elas pagassem apenas uma vez. Essa foi uma intercessão para que não haja estímulo à desassociação.

A crise da Covid-19 acelerou a transformação no mercado de serviços bancários e financeiros. Pagamentos sem contato, incentivo a usar o dinheiro o mínimo possível, canais digitais mais eficientes e com mais serviços, entre outros, tiveram de ser expandidos rapidamente. Como isso impactou os associados da ABBC e o que eles estão fazendo para atender a essas demandas?

A pandemia mostrou que os projetos de inclusão de cidadania financeira realmente têm de prosseguir. Passamos a enxergar 60 milhões de clientes potenciais que não eram vistos pelo mercado. Essas pessoas têm telefone celular. Os modelos de negócio do milênio passado precisam ser revistos, bem como algumas regulações, como a da abertura de conta corrente, de arrecadação de utilities de concessionárias e de impostos. São modelos binomiais e nós vamos para o quântico. O Tesouro Nacional sinalizou, no início de junho, que as concessionárias de água, esgoto, telefonia e energia vão adotar o pagamento instantâneo e usar QR Code a partir de março do ano que vem. Redução dos custos para um décimo de centavo.

Alinhados ao BC, desenvolvemos projetos de open banking, pagamentos instantâneos, interoperabilidade de ATMs e gateway de arrecadação, por exemplo. Este último, criado para ser uma alternativa ao registro de CDBs e letras financeiras, vai proporcionar redução de custos. As pessoas abrem uma conta em um banco para fazer investimentos, sacar dinheiro e pagar suas contas, de preferência por um canal barato, o digital, que hoje é o telefone celular, mas muitos clientes têm de ser híbridos porque abrem conta nos bancos da ABBC e são obrigados a ter conta nos grandes bancos.

Semanalmente, temos reuniões com o BNDES, associado à ABBC, para operacionalizar esses programas. Proximidade extremamente contributiva porque o banco compartilha novas oportunidades para destravar os canais de crédito por meio dos bancos digitais da ABBC. 

A crise vai nos dar a oportunidade de competir mais e é fundamental que seja assim porque o lado perverso dela é aumentar a concentração bancária, ao se esperar que apenas os cinco grandes bancos emprestem. Quando o BNDES, em parceria com os nossos associados, tenta irrigar esses canais de crédito, quando os associados utilizam o DPGE – Depósito a Prazo com Garantia Especial – e a letra financeira, miram na mesma direção do objetivo estabelecido pelo BC. A consequência natural da crise da Covid-19 é esse mundo novo que vem aí e estamos atentos para participar dele.

Quais são as mudanças mais relevantes para os associados com os pagamentos instantâneos e o open banking? 

Os dois projetos são centrados no consumidor, que está mais valorizado, é proprietário dos seus dados e quer serviços mais baratos. Num futuro próximo, com base no open banking e nos pagamentos instantâneos, vamos observar na ponta ativa, o mercado de crédito, a ocorrência de um fenômeno que aconteceu no mercado de captação. Antigamente, não havia um banco que oferecesse fundos, debêntures e produtos de outros bancos. As plataformas abertas possibilitam esse avanço. Os bancos digitais oferecem produtos de terceiros em sua plataforma, o que aumenta a competição e dá visibilidade ao mercado. Quem comprava CDB, LCA, LCI, CRI ou CRA apenas dos grandes bancos passou a enxergar que existem os associados da ABBC, mesmo que alguns sejam grandes. São mais de oitenta opções. 

Outra evolução que aguardamos e que deve ser mais um vetor desse processo é o cadastro positivo, que vai possibilitar acesso a linhas mais baratas ao bom pagador. Esses projetos e esse histórico vão aumentar a competição e proporcionar custos menores para os clientes. 

Tudo vai migrar para o celular, com diminuição da necessidade de dinheiro físico, que gera transporte e abastecimento caros. As transações vão ser cada vez mais digitais, seguras, transparentes

Como o senhor vê o futuro do mercado de serviços financeiro, que outras “deficiências” devem ser aprimoradas e superadas pelas inovações?

É necessário aumentar a competição. Já mencionei porque as pessoas abrem conta em um banco, mas o débito automático segue a regulação 1764 sobre arrecadação, criada há trinta anos, o que obriga o cliente a ser híbrido. Ela precisa ser atualizada. Na década de 1990, o celular era um tijolão, falávamos no orelhão. Saímos do orelhão para o celular. Essas transformações são irreversíveis. 

Nossa atuação é diuturna nesse momento de crise. O desafio agora é saber o que virá de novo, qual é a segunda geração dos pagamentos instantâneos, quais outros produtos e serviços vamos oferecer.

Tudo vai migrar para o celular, com diminuição da necessidade de dinheiro físico, que gera transporte e abastecimento caros. As transações vão ser cada vez mais digitais, seguras, transparentes. Se vamos usar menos o dinheiro físico, é importante que aqueles 60 milhões de pessoas tenham acesso a esses serviços. A educação financeira é fundamental. Precisamos educar os clientes que entram no mercado, informá-los sobre os produtos para o seu perfil; ensiná-los a não usar o rotativo do cheque especial. As entidades do setor precisam prestar esses serviços de esclarecimento à população.

O crédito consignado, que nasceu dentro da ABBC no início deste milênio, é o mais barato que existe no Brasil. Há que se tomar cuidado com qualquer medida que diminua o porcentual destinado a ele, porque, ao fazê-lo, o mercado empurra o cliente para linhas mais caras.

A crise deixou muitas deficiências expostas e surgiram iniciativas para auxiliar as micro e pequenas empresas. Tudo isso vai permitir dar o salto quântico que mencionei com o PIX e o open banking e ter um mercado cada vez mais competitivo. O aumento da competição reduz a concentração, com segurança, e proporciona aos clientes melhores experiências, inclusão financeira e serviços mais baratos. O grande desafio é um décimo de centavo ou um real. 

A ABBC vai participar dessas soluções com muita dedicação. Queremos atuar ativamente nessas discussões, de maneira propositiva, para construirmos um mercado financeiro nacional cada vez mais forte.

Rolar para cima