isaac sidney, febraban

ENTREVISTA

O papel dos bancos na crise da saúde e na continuidade das transformações

Pandemia, pagamentos instantâneos e open banking aceleram a digitalização do setor financeiro

Por Edilma Rodrigues

presidente da Federação Brasileira de Bancos – Febraban, Isaac Sidney, assumiu o comando da entidade em março, em meio à crise sanitária que acabava de chegar ao país, impondo restrições ao convívio social, demandas de socorro financeiro às empresas e ampliação da oferta de serviços bancários digitais. Com equipes distribuídas e uma série de medidas a serem tomadas tanto em decorrência da pandemia como pelas pautas da Agenda B+ em curso, primordialmente o PIX e o open banking, o executivo conta quais foram seus desafios nesses primeiros meses de sua gestão.

Deste momento tão particular na vida de todos, na visão de Sydney, é possível tirar ensinamentos e antever tendências, como a aceleração e o aprofundamento da digitalização e da utilização dos meios remotos no setor financeiro. Para ele, questões de educação financeira e de inclusão bancária terão papel crescente em nossa sociedade nos próximos anos. “Quando vejo todo esse esforço admirável que o governo vem fazendo para implementar os programas sociais, penso como teria sido muito mais simples se todas essas pessoas já estivessem bancarizadas.” 

O senhor assumiu a Febraban no fim de março, já em meio à pandemia do novo coronavírus. Como foram esses primeiros meses à frente da entidade e quais desafios foram postos por esta crise? Quais são seus objetivos à frente da federação?

Os primeiros meses à frente da Febraban, de fato, foram particularmente desafiadores. Assumimos em um momento sem precedentes na história, com desafios enormes para o país, para o sistema bancário brasileiro e para a própria entidade. Em poucas semanas, organizamos, em parceria com o governo federal e o Congresso Nacional, ações para garantir um bem-sucedido suprimento de crédito para empresas de todos os tamanhos e para o cidadão brasileiro. E tivemos a satisfação de acompanhar ações importantes, que serão sempre paradigmas para a sociedade. Neste momento tão grave, os bancos brasileiros demonstraram que têm consciência de sua função social, por meio da doação de mais de 2 bilhões de reais em ações humanitárias e para infraestrutura hospitalar, além do seu papel clássico com a renegociação de dívidas e a concessão de créditos até maio num total de 1 trilhão de reais, sem contar a redução do spread nesse período mais agudo da pandemia. Com isso, estamos dando fôlego financeiro necessário para os cidadãos e o setor produtivo passarem essa fase. Nossas ações na Febraban vão continuar nessa direção, ou seja, a de aproximar ainda mais os bancos da população e da economia real, com cada vez mais transparência, estimulando o acesso aos serviços bancários. Há grandes desafios pela frente, mas considero que nos últimos dois meses tivemos uma demonstração clara da nossa disposição em ajudar.

Muitas inovações para o mercado financeiro estão na agenda do Banco Central, algumas com datas próximas para serem implementadas. É o caso dos pagamentos instantâneos, PIX, que a Febraban tem apoiado.  Como está a implantação dessas inovações por parte das instituições bancárias e financeiras, associadas à Febraban? Foram necessárias muitas adaptações?

Como você sabe, a tecnologia já é parte do negócio bancário, lembrando que os bancos, ao longo dos anos, apresentam um papel de vanguarda no seu uso para os serviços e produtos ofertados aos clientes. 

Foi assim com o uso da internet, com a disponibilidade dos serviços nos celulares, uso de chip, de token, captura e emprego de biometria, disponibilidade de serviços nas redes de autoatendimento e diversas outras aplicações já normais no nosso dia a dia.

O PIX já está em fase de desenvolvimento e testes e a indústria bancária estará pronta para oferta de diversos casos de uso em novembro deste ano. Seguramente, o Brasil será o maior país a implementar o uso de pagamentos instantâneos no mundo. Esse produto será um fator de transformação para os próximos anos, com custo reduzido e conveniência para o cliente, sendo uma ferramenta importante para consolidar o nível de bancarização da população.

Acredito que a maior adaptação que tivemos de fazer foi manter o engajamento das equipes em um ambiente de trabalho remoto e com tantas prioridades necessárias neste momento de enfrentamento da pandemia. 

Ao longo das últimas semanas, as equipes de tecnologia e produtos fizeram um enorme esforço para, de um lado, oferecer os ajustes necessários nos processos e produtos e, de outro, não perder o foco nos projetos estruturais de longo prazo, como o PIX.

Seguramente, o Brasil será o maior país a implementar o uso de pagamentos instantâneos no mundo. Esse produto será um fator de transformação para os próximos anos, com custo reduzido e conveniência para o cliente

Com o PIX, os participantes – fintechs, instituições de pagamento em geral e outros players – terão condições mais equânimes no mercado de pagamentos. Como os incumbentes estão se preparando para mais essa concorrência? Quais estratégias os bancos e a entidade percebem como profícuas para manter seus atuais clientes e continuar a aumentar sua base?

Em primeiro lugar, é importante dizer que o uso de pagamentos instantâneos é fundamental para o cliente, que está acima de tudo. Nos dias atuais, já temos mensagens instantâneas, vídeos instantâneos. E por que não termos pagamentos instantâneos, disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana? Realizar transações em menos de dez segundos já é uma necessidade da sociedade.

Em segundo lugar, a indústria bancária sempre foi favorável à competição, estimulando que novos participantes possam atuar no mercado brasileiro de forma isonômica com os bancos incumbentes. As condições para novos entrantes sempre foram equânimes, sem barreiras. 

O setor bancário é um setor de capital intensivo, que requer investimentos elevados e, muitas vezes, com retornos de longo prazo, mas isso não quer dizer que as condições de competição não sejam equânimes no Brasil. A necessidade de elevados volumes de capital é assim, no Brasil e no mundo, mas graças a esses elevados requerimentos é que temos um setor saudável, que consegue superar crises mundiais, como a que estamos atravessando.

Um modelo de pagamentos barato, seguro e conveniente trará maior eficiência ao setor como um todo, permitindo ao cliente menor movimentação de numerário, maior uso da tecnologia e mais segurança nas suas transações. Não vemos motivos para não incentivar esse modelo de pagamento.

Outra inovação em andamento é o open banking, cuja primeira das quatro fases de implantação está prevista para 30 de novembro. Quais são os desafios da entidade e de seus associados para o compartilhamento dos dados relativos aos canais de atendimento e a produtos e serviços de varejo disponíveis para a contratação dos clientes? Além das diretrizes de segurança estipuladas pelo BC, há outros cuidados para proteger os dados dos clientes?

O open banking ainda está em seu estágio preliminar de definições. A Febraban já havia iniciado seus trabalhos em 2018, com a contratação de equipes especializadas e montagem de times internos para domínio profundo no assunto. Arriscaria dizer que atualmente temos a equipe mais bem preparada em open banking do Brasil trabalhando de forma muito bem coordenada na Febraban.

O grande desafio é, no tempo previsto na regulamentação do Banco Central, construir um ecossistema robusto, confiável e que seja transformacional para o setor bancário no Brasil. Já aprendemos bastante com os casos de uso, predominantemente Reino Unido e Austrália, e acreditamos que o setor fará contribuições propositivas ao longo do tempo.

Também buscamos preservar a segurança e a confiabilidade do sistema, especialmente neste momento, em que estamos trabalhando na implementação da Lei Geral de Proteção de Dados. Apesar de o setor bancário ser uma atividade regulada e supervisionada, e de termos historicamente uma estrutura robusta de proteção de dados, há necessidade de alguns ajustes à luz da regulação nova. Todas essas frentes precisam caminhar juntas, sem perder o foco na sustentabilidade do projeto a longo prazo.

Como a Febraban está se preparando para as novas fases de implementação do open banking e quais os principais passos a serem dados no atendimento e compliance a elas?

Acredito que não somente o setor bancário como todos os participantes terão um grande desafio para implementar as fases subsequentes, dado que o programa no Brasil apresenta um escopo maior que outros países e um prazo menor. De outro lado, temos a vantagem de aprender com quem já passou por isso, ganhando tempo e atuando antecipadamente nas questões mais complexas. Como disse antes, estamos nos preparando já há algum tempo. 

Temos estruturas internas dedicadas de forma exclusiva para isso, equipes dos bancos altamente qualificadas dando o apoio técnico, uma consultoria internacional em contato constante com os escritórios de Londres, Austrália, Estados Unidos e Europa, trazendo até nós todo o conhecimento e suporte necessário. Se observarmos os investimentos que a Febraban já realizou ao longo dos dois últimos anos, ficam claros sua proatividade e seu conhecimento do assunto.

Além disso, outras áreas dos bancos darão suporte para esse trabalho, como as de compliance, jurídica, de prevenção às fraudes, de produtos e de segurança da informação. Temos muito interesse em que o open banking funcione como desenhado. Afinal, os bancos serão os maiores usuários do sistema e poderão ofertar novos produtos e serviços para seus clientes.

Temos muito interesse em que o open banking funcione como desenhado. Afinal, os bancos serão os maiores usuários do sistema e poderão ofertar novos produtos e serviços para seus clientes

Em decorrência da pandemia do novo coronavírus, o setor foi desafiado a disponibilizar mais serviços em canais digitais. Como o senhor vê esse novo contexto, suas implicações e resultados? Podemos dizer que o digital será o “novo normal” e que a adesão a eles deve aumentar de maneira significativa?

É admirável a forma como os bancos reagiram prontamente à pandemia. O primeiro grande desafio foi colocar um efetivo significativo de funcionários em trabalho remoto, sem perder produtividade e engajamento. Rapidamente passamos para uma segunda fase, que foi a manutenção dos serviços por meio dos canais digitais, sem nenhum incidente por conta do aumento da demanda e, finalmente, revisamos processos e produtos, aumentando ainda mais a oferta desses serviços. Importante destacar que o setor bancário no Brasil já contava com uma quantidade de produtos e serviços nos canais digitais – terminais de autoatendimento, celular e internet – muito maior que qualquer outro país no mundo, o que acabou viabilizando a migração desses clientes do mundo físico para o mundo digital.

Adicionalmente, a Febraban e os bancos associados, sensíveis ao momento que estamos atravessando, intensificaram a comunicação incentivando seus clientes e usuários a utilizarem os canais digitais, como forma eficaz de manter o isolamento social.

Vemos esse contexto como uma mudança de atitude por parte do cliente e acreditamos que, ao utilizarem os canais remotos, eles devem incorporar esse novo comportamento ao seu dia a dia e passar a priorizar as transações digitais como seu principal canal de atendimento e de transações.

a Febraban e os bancos associados, sensíveis ao momento que estamos atravessando, intensificaram a comunicação incentivando seus clientes e usuários a utilizarem os canais digitais, como forma eficaz de manter o isolamento social

A concessão de crédito tem sido bastante debatida nesta crise, especialmente para os pequenos empreendedores. Segundo algumas pesquisas, cerca de 80% desses empresários não tiveram sucesso na obtenção de crédito para sua sobrevivência desde o início da pandemia. Quais ações de apoio estão sendo pensadas pela Febraban e pelos bancos para atender a essa demanda? As atuais balizas, como score, rendimento, estar ou não negativado, podem ser flexibilizadas?

Os números oficiais do Banco Central mostram um expressivo crescimento, da ordem de 37%, das concessões de crédito para as empresas nos meses de março e abril, ante o mesmo bimestre de 2019. Isso representa um volume de 379,4 bilhões de reais de concessões no período, superior em cerca de 101,9 bilhões de reais aos meses de março e abril de 2019. O capital de giro, linha mais demandada nesta crise, mostrou crescimento de 132%. Se considerarmos as informações até o dia 22 de maio, o volume de concessões de crédito para as empresas desde o mês de março chega a 521,6 bilhões de reais. Além do aumento das concessões, houve queda de 1,2 ponto porcentual da taxa média de juros nas operações com recursos livres para as empresas entre os meses de fevereiro a abril. 

Esses números mostram o importante papel que vem sendo desempenhado pelo setor bancário na atual crise como agente mitigador de risco, canalizando recursos para milhares de empresas atravessarem esse período de dificuldade. Vale citar que tal elevação das concessões e queda dos juros aconteceu em um cenário altamente incerto para as instituições financeiras, que tiveram aumento do custo de captação e da inadimplência. 

Esse crescimento da inadimplência, que deve se acelerar nos próximos meses, é o que explica o expressivo aumento das provisões para os créditos inadimplidos que os principais bancos já mostraram na divulgação de seus balanços referentes ao primeiro trimestre. 

As pequenas e médias empresas têm dificuldades maiores e demandam atenção especial. É natural que, em cenários de crise, as empresas de pequeno porte acabem sofrendo mais, já que de forma geral contam com menos reservas financeiras e menor capacidade de prover garantias quando comparadas com as de grande porte. 

Em segundo lugar, a maior parte delas está no setor da economia mais afetado pela estratégia de distanciamento social, que é o de serviços. Por conta disso, a demanda dessas empresas por crédito se multiplicou, segundo estimativas, para cerca de cinco vezes o seu nível normal. Assim, infelizmente, mesmo com o aumento expressivo nas concessões, não foi possível atender a toda essa demanda. 

É por conta desse forte aumento da demanda e do risco implícito no segmento que em praticamente todos os países vem ocorrendo um expressivo aporte de recursos públicos para esse setor. E aqui estamos indo na mesma direção, em alguns casos até com modelos mais avançados de cooperação entre os setores público e privado. Acredito que estamos avançando. Apesar das dificuldades, temos no Brasil um Banco Central e um setor bancário que estão entre os que reagiram de forma mais rápida e efetiva para debelar os impactos da crise sobre a economia. 

Estamos passando por uma crise dessa proporção, e o sistema bancário vem, como dizemos, sendo parte da solução e não do problema

Como a Febraban enxerga o futuro do setor pós-pandemia? Quais lições o mercado deve tirar deste momento? E qual é a sua visão pessoal a esse respeito?

Embora ainda seja um pouco cedo para conclusões definitivas, acho sim que já podemos tirar alguns ensinamentos desta crise. O primeiro é o reconhecimento do acerto da decisão que os reguladores mundiais (incluindo os brasileiros) tomaram após a crise de 2008 de fortalecer a base de capital, de liquidez e operacional dos bancos em praticamente todas as jurisdições. Estamos passando por uma crise dessa proporção, e o sistema bancário vem, como dizemos, sendo parte da solução e não do problema, fornecendo crédito para as empresas, mantendo o funcionamento praticamente pleno do sistema de pagamentos e permitindo que empresas e famílias adotem  a política de distanciamento social sem problemas de continuidade em seus negócios e em suas vidas financeiras. 

A segunda é que a tendência de digitalização e utilização dos meios remotos no setor financeiro deve se acelerar e se aprofundar. O setor financeiro, em especial no Brasil, sempre esteve na vanguarda da incorporação da tecnologia para melhorar o funcionamento de suas operações e para dar mais conforto a seus clientes e esta crise mostrou o acerto da decisão. Acredito que nos próximos anos veremos um aprofundamento dessa tendência, com mudanças ainda mais intensas no modelo de negócio bancário, em particular na sua interação com os clientes. 

Em terceiro, temos as questões da sustentabilidade e do meio ambiente que chegaram ao setor bancário e devem ganhar relevo nos próximos anos. A questão da sustentabilidade, em suas muitas dimensões, será uma variável cada vez mais importante na tomada de decisão dos bancos para concessão de crédito e alocação de investimentos. 

Por fim, mas não menos importante, eu pessoalmente acho que as questões de educação financeira e de inclusão bancária terão papel crescente em nossa sociedade nos próximos anos. Quando vejo todo esse esforço admirável que o governo vem fazendo para implementar os programas sociais, penso como teria sido muito mais simples se todas essas pessoas já estivessem bancarizadas. Essa é uma tarefa de todos nós, bancos privados, públicos e reguladores. Todos nós, e principalmente o país, temos muito a ganhar com essa agenda positiva de educação financeira e de bancarização. 

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