MATÉRIA DE CAPA

Open Banking acelera a convergência de tecnologias e inaugura nova era dos bancos

modelo brasileiro aponta para o conceito de open finance e se destaca no contexto internacional

por Ademir Morata

maior mérito do open banking é recolocar o consumidor no banco do motorista na gestão de seus recursos financeiros.” Com essa frase, dita em entrevista a este Anuário, o diretor de Regulação do Banco Central, Otávio Damaso, expressou o que acredita ser a maior revolução que está prestes a ser vivida pela indústria financeira do país. Mas, olhando o projeto pela perspectiva dos movimentos de inovação, é possível afirmar também que ele promove a convergência acelerada das mais poderosas tecnologias emergentes e, assim, viabiliza a construção de um novo e mais vigoroso ecossistema de produtos e serviços financeiros.

O diretor de marketing e inovação da Sinqia e chief innovation officer do hub de inovação Torq, Leo Monte, por exemplo, defende a tese de que com o open banking o país pode estar entrando na era dos “bancos exponenciais”. 

“O futuro é um sistema completamente integrado. Até aqui a indústria financeira desenvolveu sua atuação em forma de silos fechados, mas agora será necessário pensar de forma aberta. Haverá muita convergência entre verticais que hoje não se falam. Acabaram as paredes e o pensamento vai ter de ser horizontal”, afirma. 

Em sua avaliação, a coexistência de ferramentas como PIX, robôs advisers, chat boots, biometria, blockchain, recomendações preditivas, credit scores construídos por inteligência artificial e machine learning num ambiente de open banking vai permitir o surgimento de vários serviços de fintechs que chegarão desburocratizando e promovendo a disrupção em modelos de negócios nesse mercado.

“Hoje, as jornadas dos usuários são montadas em modelos individuais e separadas. Há a esteira de seguros, de contas correntes, de crédito etc. Mas acontece que o consumo é praticado de forma cruzada. Ao mesmo tempo que a pessoa faz compras no mercado, ela vai ao shopping, faz gastos ligados à saúde e troca o carro. Com o open banking, os bancos terão toda essa informação à disposição e precisarão começar a entender como usar esses dados em seu benefício se quiserem jogar esse novo jogo”, diz. “O fato é que não fará mais sentido ter cinco ou seis contratos com instituições diferentes para obter serviços básicos e parecidos como conta corrente, seguro de vida, cartão de crédito etc.”, completa. 

“O futuro é um sistema completamente integrado. Até aqui a indústria financeira desenvolveu sua atuação em forma de silos fechados, mas agora será necessário pensar de forma aberta”

O surgimento dos hubs de serviços financeiros

A fundadora da fintech Linker e diretora executiva da Associação Brasileira de Fintechs (Abfintechs), Ingrid Barth, concorda que no ambiente atual existem muitos atritos na relação do usuário com os serviços financeiros e que um dos principais efeitos do open banking será reduzir esses gargalos. “A pessoa precisa entrar num site de banco ou num app diferente sempre que necessita de qualquer serviço. Ao fazer isso, ainda tem de passar por processos como colocar senhas, compartilhar documentos etc. O open banking vem para melhorar essa relação, transformar a experiência do usuário e trazer maior fluidez”, diz.

Segundo ela, com o novo ambiente de negócios, reduziremos nossa dependência de apps e internet banking, por exemplo. “Se precisarmos fazer alguma transação e estivermos usando o e-mail ou outra plataforma de mensageria qualquer, poderemos resolver tudo por ali mesmo. Tudo estará integrado e não precisaremos mais fornecer CNPJ, CPF e clicar em múltiplos botões que nos levam a passar por várias telas para chegar ao núcleo da transação”, diz. Ela revela que acredita na proliferação de hubs de serviços financeiros que permitirão que, dentro da mesma plataforma, construída em formato de marketplace, seja possível realizar todas as transações.

O head de operações do  Distrito, Tiago Ávila, afirma que, apesar de o mercado ainda estar estudando as melhores estratégias e esperando para ver definições sobre algumas regras, o ecossistema de inovação tem realmente trabalhado em soluções que apontam na direção dos hubs. Ele cita como exemplos casos como Hub Fintech, PicPay, SpinPay, Guia Bolso e outros. “Com o open banking, passa a ter vantagem competitiva quem consegue gerar maior segurança e benefício para o consumidor. Os usuários não estarão dispostos a compartilhar seus dados com quem não foi transparente ou registrou algum desconforto em sua relação no passado”, diz.

Ávila acredita que, por enquanto, as startups buscam criar negócios acompanhando o que tem surgido no exterior. “Os executivos olham o que acontece nos Estados Unidos, na Europa e em outras regiões e tentam reproduzir aqui fazendo ajustes de acordo com a nossa realidade”, diz.

“Com o open banking, passa a ter vantagem competitiva quem consegue gerar maior segurança e benefício para o consumidor”

A necessidade de informar aos usuários sobre os benefícios do sistema

Para o diretor de Inteligência de Mercado da Liga Ventures, Raphael Augusto, algumas das lições aprendidas com os modelos de open banking aplicados em outras regiões serão fundamentais para o sucesso da iniciativa no Brasil. Entre elas, ele destaca a questão da comunicação e educação dos clientes sobre as possibilidades e oportunidades criadas com esse sistema. 

“Para aproveitarmos ao máximo o que pode ser gerado, um dos pilares mais importantes do open banking é o trânsito da informação, o que nos coloca diante de perguntas do tipo: como isso poderá ser feito? Em quais momentos? Por quais canais? As vantagens listadas pelo modelo são muitas, e essas e outras questões surgirão no dia a dia das operações. É necessário comunicar, ensinar e deixar claras essas possibilidades, passando também pela experiência dos usuários de como fazer isso nos sites, aplicativos, produtos, contratos, processos etc.”, diz.

Leo Monte, da Sinqia, afirma que nitidamente na Europa não foram alcançados os índices de engajamento da forma como os organizadores esperavam e a falta de clareza em relação a esses pontos é citada como uma das razões disso. Ainda assim, o estudo chamado “Rastreador do Open Banking”, produzido pela Mastercard, revelou que a Europa chegou ao final de março deste ano com um total de 279 instituições financeiras registradas para prestar serviços de open banking junto a alguma autoridade nacional do continente. O montante representa um aumento de 11% em comparação com o trimestre anterior. 

Com o objetivo de facilitar o nível de conhecimento sobre as vantagens oferecidas pelo sistema no velho continente, a Entidade de Implementação de Banco Aberto (Obie), órgão criado pela Autoridade de Concorrência e Mercados (CMA) para oferecer o open banking no Reino Unido, chegou a lançar recentemente uma loja de aplicativos on-line para ajudar indivíduos e empresas a localizarem o sistema adequado de open banking a cada caso.

Nesse ambiente, é possível encontrar soluções voltadas para a organização de orçamento, contabilidade e impostos, pagamentos, empréstimos, aconselhamento sobre dívidas, salvaguarda financeira e muitas outras funcionalidades. A loja de aplicativos contém mais de 45 alternativas, com novos produtos adicionados a cada semana.

Enquanto isso, a pesquisa “Open Banking: Oportunidades, Desafios e Previsões de Mercado 2020-2024”, produzida pela Juniper Research, informa que o número total de usuários do novo sistema dobrará entre 2019 e 2021. Segundo o levantamento, o volume passará de 18 milhões no final de 2019 para 40 milhões em dezembro do ano que vem.

A evolução trazida pelo modelo brasileiro

Na entrevista concedida ao Anuário, Otávio Damaso explicou que, para a construção do modelo de open banking brasileiro, o Banco Central tomou como referência, principalmente, as experiências do Reino Unido, da Europa continental, da Austrália e de jurisdições do Leste Asiático, mais especificamente de Cingapura e de Hong Kong. 

De acordo com ele, a observação sobre essas experiências e um prolongado processo de colaboração com representantes dos mais variados ecossistemas de interesse no tema permitiram ao modelo nacional evoluir substancialmente em relação ao dos outros países no que diz respeito ao escopo de dados.

“O modelo brasileiro será implementado em quatro fases, sendo que a última delas abrangerá dados de outros serviços financeiros ofertados e distribuídos por instituições financeiras, como operações de câmbio, investimentos, seguros e previdência complementar aberta. Alguns consideram isso uma espécie de evolução do modelo de open banking, chamado de open finance, e é algo que outras jurisdições, como o Reino Unido e a Austrália, também estão avaliando adotar”, explica. 

revista-cantarino-img-online-banking-ed15

Cronograma definido

As quatro fases citadas e seus respectivos prazos são os seguintes:

1ª FASE. Está prevista para ser encerrada até 30 de novembro deste ano e consiste no compartilhamento dos dados das instituições participantes relativos aos canais de atendimento e a produtos e serviços de varejo mais comuns disponíveis para a contratação por clientes, relacionados a crédito, contas e serviços de pagamento.

2ª FASE. Prevista para 31 de maio de 2021, consiste nas informações de cadastro de clientes e de representantes e dos dados transacionais de clientes relativos aos produtos e serviços indicados na primeira fase. 

3ª FASE. Prevista para 30 de agosto de 2021, refere-se aos dados relativos aos serviços de iniciação de transação de pagamento e de encaminhamento de proposta de operação de crédito. 

4ª FASE. Prevista para 25 de outubro de 2021, refere-se aos dados de produtos e serviços e de transações de clientes relacionados com operações de câmbio, serviços de credenciamento em arranjos de pagamento, investimentos, seguros, previdência complementar aberta e contas-salário.

A vice-presidente de Produtos da Mastercard Brasil e Cone Sul, Ana Paula Lapa, considera a definição desse cronograma e a liderança do Banco Central no desenvolvimento do open banking brasileiro como uma grande vantagem. Ela comenta que, ao definir as regras e os prazos, o BC organiza a indústria e incentiva todos os competidores a fazerem tudo ao mesmo tempo. Assim, o órgão consegue estabelecer um ritmo que não deixa dúvida de que esse é um caminho sem volta. “Certamente, estamos diante de um novo momento, no qual de fato o consumidor terá todo o poder de escolha. Até aqui, vivíamos sob uma lógica pela qual, ao fazer uma compra conosco, o cliente recebia uma carta que lhe dava os parabéns pela escolha. O open banking vai nos ensinar que o correto é o contrário. É o consumidor quem deve nos parabenizar por ele ter nos escolhido”, diz.

Equilíbrio entre regulação e autorregulação

Outro avanço realizado no desenvolvimento do modelo de open banking brasileiro é a busca pelo equilíbrio entre regulação e autorregulação. Com relação a isso, a parte sob o controle do órgão regulador se refere aos princípios e objetivos, inclusive o escopo mínimo de dados e serviços, o escopo de participantes, as responsabilidades pelo compartilhamento de informações e a jornada do cliente, além da estrutura inicial de governança e do cronograma de implementação.

Já a autorregulação, que ficará a cargo dos participantes do open banking, proporá ao BC o padrão tecnológico para as interfaces e para os certificados de segurança, a padronização do layout de dados, os canais de encaminhamento de demandas e de resolução de disputas além dos valores de ressarcimento.

Damaso ressaltou que se trata de uma autorregulação assistida, pois o BC estará sempre acompanhando todo o debate, o desenvolvimento técnico e as deliberações, bem como aprovará a convenção proposta pelos participantes. Ele ressaltou que o BC possui a prerrogativa de trazer algum desses itens para o âmbito da regulação, caso seja necessário.

Para o CEO da fintech GR1D, Renato Terzi, um grande desafio nesse processo será conseguir disponibilizar os dados. Ele argumenta que as empresas, em boa parte, têm enorme dificuldade até mesmo para ver os dados dos seus próprios clientes e, no entanto, agora terão de ser capazes de disponibilizá-los para terceiros. “Parte da autorregulamentação definirá, entre outras coisas, padrões de trocas, como dicionários de dados, estrutura do banco e segurança. Cumprir com o que for acordado por todos será um desafio para alguns”, diz.

“o BC estará sempre acompanhando todo o debate, o desenvolvimento técnico e as deliberações, bem como aprovará a convenção proposta pelos participantes”

O executivo ressalta que os participantes do open banking, sejam eles obrigatórios ou voluntários, precisarão organizar seus dados conforme a autorregulamentação e deixá-los à disposição de quem tiver direito a demandar. Para isso, precisarão gerar APIs com essa habilidade e construir um ambiente de oferta dessas APIs que tenha o nível de segurança necessário, além de relatórios de uso e consumo, suporte ao usuário, cobrança (para os casos que se acordar) e gestão de comunidade, além de um processo robusto de autenticação e segurança. Finalmente, será necessário publicar os dados das operações realizadas e gerenciar toda a comunidade envolvida.

Terzi acredita, no entanto, que o maior desafio de todos não está em tecnologia. “Para ter sucesso nesse ambiente, uma mentalidade aderente será necessária, e já temos visto que este será um grande desafio para algumas instituições”, afirma.

O ecossistema de inovação está aquecido e de olho em novos futuros

Seja como for, o fato é que, assim como os bancos, as fintechs e outros players estão se movimentando de forma acelerada para explorar as possibilidades de negócios desse novo mundo. Em um estudo realizado em outubro de 2019, a aceleradora de startups Liga Ventures já havia detectado 43 iniciativas dedicadas ao open banking como seu negócio principal. A empresa trabalha numa nova versão do estudo para o mês de julho e acredita que esse número será facilmente superado. 

Eduardo Fuentes, da Distrito Fintech, afirma que o open banking amplia as oportunidades de negócios para as fintechs. “Nosso país ainda tem uma massa de desbancarizados gigantesca, com grande concentração bancária e um spread insustentável. Dessa forma, inovações como open banking, PIX e os sandbox regulatórios só tendem a produzir maior crescimento no setor de fintechs”, afirma.

“inovações como open banking, PIX e os SANDBOX regulatórios só tendem a produzir maior crescimento no setor de fintechs”

Raphael Augusto, da Liga Venture, ressalta que, assim como em outros mercados, as startups brasileiras têm construído e gerido seus negócios colocando o cliente no centro de tudo. “Com o uso de tecnologias que consigam dar escala e inteligência em análises, garantir a segurança dos dados e transações e construir arranjos financeiros para financiamentos e funding para operações, as startups conseguirão (como já conseguem hoje) atender rapidamente a grandes dores atuais e ajudar na construção e amadurecimento da gestão financeira do país no que se refere tanto às pessoas físicas como às jurídicas”, diz. 

Na verdade, a expectativa dos futuristas é que o open banking dê a largada para que as coisas realmente novas comecem a ser desenvolvidas pelos bancos, fintechs e outros participantes desse ecossistema.

Leo Monte, da Sinqia, cita por exemplo a possibilidade de interação por meio de realidade aumentada e virtual. “Acredito que seja possível ao usuário de um óculos com essa tecnologia arrastar uma moeda virtualmente e enviar recursos financeiros para outra pessoa que ele esteja vendo do outro lado da rua”, diz. 

Ele fala também na possibilidade de criação das chamadas comunidades virtuais, como o Second Life, que ficou famoso por um certo tempo, mas acabou desaparecendo. “Creio que a conexão de tecnologias num ambiente aberto nos permita ver coisas desse tipo. Os games hoje já movimentam mais dinheiro que o cinema. Os adeptos desses jogos vivem em ambientes virtuais paralelos. Não tem nenhum banco focado nisso. Todo mundo quer navegar no mundo dos bancos e está na hora de os bancos navegarem em outros mundos. Os bancos podem usar esse tipo de estratégia. No futuro breve, tudo vai ser banking, mas não vai ser percebido como banking”, conclui. 

Rolar para cima