OPINIÃO

Por Carlos Augusto de Oliveira

C-level com mais de trinta anos em grandes bancos e processadoras de cartão. Ex-CIO/COO do Banco Original, primeiro digital full bank brasileiro. Especialista na liderança de processos de transformação digital e em grandes projetos de inovação tecnológica. Atualmente, é diretor da ABBC (Associação de Bancos Brasileiros), coordenando os fóruns de tecnologia e inovação do mercado financeiro. Sócio-diretor da Gennus, empresa de consultoria em estratégia de desenvolvimento de serviços financeiros. Mentor e investidor de startups, fomentando o mindset digital e a cultura de inovação

Uma revolução com data marcada

emos um grande encontro marcado em novembro com o futuro. Sim, uma mudança de enorme magnitude vem sendo planejada e construída cuidadosamente, e tem data e hora para acontecer.

Trata-se de um fenômeno que ocorre muito episodicamente – como a passagem esperada de um cometa –, e desde 2002 não acontecia algo tão impactante na indústria financeira. Na ocasião, foi implantado o SPB, que ainda persiste como referência importante do Brasil para alguns países. Na época, as transferências interbancárias somente ocorriam no final do dia e eram confirmadas (ou estornadas) no dia seguinte. A TED viabilizou a liquidação ao longo do dia e por isso mudou completamente a dinâmica de comportamento das transações de pagamento. Isso contribuiu para acelerar o uso dos canais eletrônicos e, junto com outras importantes medidas coordenadas pelo Bacen, provocou uma evolução fundamental da automação bancária.

Mas o SPB envelheceu, apesar do elevado grau de digitalização dos clientes e das instituições financeiras. Hoje, persistem muitas ineficiências e gaps incompatíveis com as exigências atuais e que oneram a sociedade impondo elevadas tarifas, fricção e limitações de toda ordem aos usuários, com intransponíveis barreiras posicionadas pelos incumbentes.

O PIX, portanto, não é apenas uma atualização tecnológica ou upgrade de velocidade na efetivação dos pagamentos para liquidação em tempo real. Seus benefícios também não se restringem à extraordinária disponibilidade onipresente de 24×7 para todos os seus serviços. Se ele trouxesse “apenas” esses benefícios já seria muito, mas, na verdade, esse novo arranjo de pagamentos traz muito mais, pois se trata de um propulsor que, sem dúvida, revolucionará todo o mercado financeiro, criando um cenário propício para competição e fértil de inovação, de forma nunca antes experimentada.

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Externamente, do ponto de vista do usuário, temos um novo modelo que revoluciona pela simplicidade e pelos rigorosos parâmetros de disponibilidade e performance. Além disso, ele quebra – de uma só tacada – os atuais modelos rígidos de efetivação e liquidação de pagamentos, sejam os complexos arranjos de cartão, sejam os restritos convênios de arrecadação de contas de consumo e tributos ou, ainda, os lentos processos de liquidação de boletos, estabelecendo um novo paradigma de funcionamento, aberto, intuitivo e fácil de usar, além de ser interoperável entre todos os participantes. 

Internamente, por outro lado, trata-se de nos colocar diante de uma infraestrutura moderna e com ricas possibilidade de desenvolvimento de diversos casos de uso e no mais alto patamar de qualidade de serviço de pagamentos compatível com os países mais avançados. A reboque, o PIX também promove uma inclusão quase ilimitada ao assegurar um ambiente aberto de participação de todo tipo de instituição financeira, fintechs e demais agentes de desintermediação do próprio mercado financeiro, oferecendo um ambiente muito eficiente, barato e sem barreiras de entrada. Algo inédito está no ar!

Além disso, adicionado a outras importantes iniciativas do Bacen, que complementam o PIX e interagem com ele, contribuindo fortemente para esse novo ambiente de inovação e ampla competição, tais como open banking e sandbox, fortalece a ideia de que sem dúvida está sendo gestada nesse novo ecossistema uma grande disrupção, que vai detonar uma saudável transformação do mercado.

Pelas características da implantação do PIX e pelo interesse demonstrado pelos participantes, o Go Live em novembro deverá ocorrer com uma virada em massa e adesão sem precedentes na entrada desse gigantesco projeto – praticamente um big bang – gerenciado pelo Bacen até aqui com uma precisão cuidadosa e o raro sangue frio de um cirurgião.

O final de 2020 tem tudo para vir com emoção em função da implantação, mas quem não vier ficará preso em um velho modelo. Definitivamente, 2021 – com ou sem Covid – receberá uma nova indústria financeira, pronta para desafios e aberta a um cenário competitivo sem precedentes!

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